Pormenor do Palacete

   O edifício principal da Academia de Música de Santa Cecília é um sóbrio palacete oitocentista, situado no coração de um dos mais típicos arrabaldes de Lisboa: a Ameixoeira.

   Foi mandado construir em meados do século XIX por José Maria Caldeira do Casal Ribeiro (1825-1896) - destacada figura da vida política portuguesa na segunda metade de oitocentos - num largo hoje chamado "Largo do Ministro", exactamente em lembrança do referido ministro Casal Ribeiro.

   A própria quinta que envolvia o palácio e que abrangia os terrenos hoje ocupados pela AMSC e pelas instalações oficiais da Rodoviária Nacional era conhecida como "Quinta do Ministro". Esta propriedade rural foi explorada regularmente até ao final dos anos trinta deste século, tendo sofrido uma evolução histórica.

   Nas casas situadas em frente da actual secretaria da Academia ficavam as instalações de apoio à lavoura da quinta (celeiros,armazéns, cocheira, estábulos, etc) e as casas de habitação do pessoal que ali trabalhava.

   O abastecimento de água era assegurado por alguns poços (um dos quais ainda é visível num dos pátios da Academia, embora devidamente protegido), e por uma mina que capatva lençóis freáticos numa outra propriedade do conde do Casal Ribeiro, situada nas proximidades do forte da Ameixoeira, a caminho da Charneca do Lumiar. São ainda hoje facilmente detectáveis os vestígios deste sistema.

   A fachada é de uma notável sobriedade neoclássica, perfeitamente equilibrada. É composta por um corpo central, mais elevado, e dois corpos laterais.

   O andar nobre possui três janelões com arcos redondos, sobrepujados por pequenas cornijas. Uma varanda corrida, apoiada sobre mísolas trabalhadas, percorre toda a fachada do corpo central.

   O piso superior, reservado a alojamento do pessoal doméstico (hoje ocupado com gabinetes para o ensino do instrumento), recebe luz de três janelas simples.

   A horizontalidade de todo o edíficio é acentuada pelas cornijas do segundo piso e da cobertura. O telhado, tanto nos corpos laterais como no corpo central, é resguardado por um tapa-fogo decorado com esquadrias rectangulares. A coroar todo o edifício, urans de pedra de belo efeito.

   Penetrando pela porta principal, desemboca-se num átrio arabizante, com seis colunas de pedra suportando arcos abatidos. O tecto, de estuque restaurado, obedece a uma decoração geométrica, ao gosto islâmico. À direita, onde agora se situam salas de aula, ficava o "Salão Luis XV"; à esquerda, a sala de jantar e, anexas, a copa, despensa, cozinha, sala de engomados, etc.

   A escadaria de acesso ao primeiro andar, iluminada por uma grande clarabóia, conduz às dependências nobres do palácio : o grande salão nobre ( ou "salão Império"), depois transformado em auditório da Academia, igualmente com um magnífico tecto estucado ; a "Sala Camões", com lambrins de azulejos historiados, onde se situava a sala de música do palácio; e várias outras dependências, outrora aposentos e, a partir de 1964, transformados em salas de aula, biblioteca, etc.

   Quando (...) a Academia de Música de Santa Cecília se instalou no palácio Casal Ribeiro, foi necessário proceder a profundas obras de restauro e consolidação. O edifício encontrava-se então muito degradado, com o soalho esburacado e as paredes manchadas de humidade. Foi preciso um enorme esforço financeiro, com o empenho e a boa-vontade de um grupo de pessoas movidas pelo desejo de criar em Portugal uma escola diferente.. Ela nasceu aqui, neste palácio oitocentista (...). Mas esta, embora seja bonita, não é a melhor casa para uma Escola. E, sobretudo, é insuficiente para as necessidades. Hoje, todos sentimos que a grande prioridade da Academia é a construção de novas instalações, que lhe permitam crescer e concretizar sonhos e projectos. (...)

 Adérito Tavares* (1989). Edifício-sede da Academia. Revista Ponto e Contraponto, ano III, nº 6 . pp.25 a 27

(*) - ex-professor de História da AMSC