Cancioneiros Portugueses

             Cancioneiro Musical de Belém

 

O Cancioneiro Musical de Belém foi descoberto nos finais dos anos 60 pelos Professores Arthur Lee-Askins e Jack Sage, especialistas na poesia quinhentista ibérica, entre os códices, na época ainda inexplorados, do Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia, em Belém, Lisboa.

Portugal dispõe actualmente de um corpus de três cancioneiros musicais quinhentistas já todos publicados com as respectivas transcrições em notação moderna : o Cancioneiro Musical de Elvas, o Cancioneiro Musical da Biblioteca Nacional de Lisboa e o Cancioneiro Musical da Escola de Belas Artes de Paris.

Se, por um lado, a descoberta de um novo cancioneiro musical maneirista de origem portuguesa é, por si só, facto de assinalável relevância - devido não só à sua raridade como também ao reduzido número de espécimes que sobreviveram - por outro lado vem engrandecer substancialmente um dos períodos mais férteis.

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1. PUES A DIOS HUMANO VEMOS
   Anónimo
   3/4 vozes ( S I, A e T, +S II no estribilho)
   Chançoneta (ou vilancete) em castelhano

   Pues a Dios humano vemos
    Venid, venid adorarle emos

    Venid adorar al chiquito
    i gram Dios de lo criado
    Pues quiso ser humanado
    Pera alegrar nuestro spirito
    I por Dios le confessemos
    Venid, venid adorarle emos.


No caso do presente códice, a sua importância é redobrada pelo facto de nos dar testemunho dos únicos Madrigais que conhecemos copiados em Ms portugueses, a par dos tradicionais Vilancetes e Cantigas, cuja temática é o amor, e de duas Chançonetas religiosas para se cantarem, uma durante o Natal e outra provavelmente no Corpo de Deus. Embora algumas das suas canções se encontrem também copiadas noutros manuscritos portugueses e outras ainda tenham sido incluídas em impressos espanhóis da segunda metade do século XVI, um número muito significativo é exemplar único.

Ainda que o nosso Cancioneiro de mão esteja datado Porto, dia de S. Miguel, [1] 603, o seu pequeno mas variado conteúdo musical reporta-nos à segunda metade do século XVI, sensivelmente entre c. 1550 - c. 1580. São de destacar as composições escritas sobre poesias cortesãs de grandes escritores portugueses desta época, como Dom Manuel de Portugal (1520?-1601) e os poetas-músicos Jorge de Montemor (c.1520-1561) e Gregório Silvestre (1520-1569) entre outros, bem como os castelhanos Garcilaso de La Vega (1503-1536) e a enigmática poetisa Cetina "La monja".

Facto também de assinalável interesse é o de este livro de mão vir acrescentar uma nova fonte às canções citadas no Teatro de Gil Vicente , aumentando, assim, o já rico acervo da música vicentina.

 

DESCRIÇÃO E CONTEÚDO DO MANUSCRITO

Anda Aires Rosado só, passeando pela casa lendo no seu cancioneiro [...]
                     (Gil Vicente, Quem tem farelos ?  c.1515)

O recheio do aqui intitulado Cancioneiro Musical de Belém faz parte integrante de uma miscelânia manuscrita copiada no Porto, por volta de 1603, que se guarda na Biblioteca do Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia (antigo Museu Etnológico Doutor Leite de vasconcelos), em Belém, Lisboa, onde tem a cota Ms 3391.

Trata-se um manuscrito sobre papel de 191 x 130 mm, aproximadamente, formando um pequeno volume in-8º, ao alto, posteriormente encadernado em pele castanha, em cuja lombada se pode ler o título : Manuscriptos / Varios. As suas folhas, cujo corte se apresenta pintado de vermelho, foram ligeiramente aparadas no sentido da largura, provavelmente aqundo da sua encadernação, mutilando algumas das anotações feitas nas margens, tanto na parte do texto como no da música.

Actualmente contém 77 folhas.

 

 

A notação da música é a mensural branca, muito simplificada e já no seu período de transição : os símbolos de mensura são, igualitariamente , o C e o ¢ : numa única peça (nº 11) este último foi usado em interacção com a proportio sesquialtera, sem nunca ter sido praticado a color. As figuras musicais ora são ligeiramente rombóides ora se aproximam já da forma redonda, como é hábito noutros manuscritos portugueses da segunda do século XVI e inícios do XVII.

O número de pentagramas traçados por página é bastante irregular, oscilando entre seis e nove. As designações de Tiple (1º ou 2º), Alto, Tenor e Baxo foram escritas no início de cada parte. A letra das canções foi anotada por extenso (com ressalva de poucas instâncias de contracções, abreviaturas e lapsos) por baixo de cada voz; as repetições textuais foram claramente indicadas, ou por extenso ou pelo símbolo  .ij então tradicionalmente utilizado. Para as repetições da música foi usado o signum congruentiae designado entre nós por "presa" , grafado por cima dos pentagramas.

O "apontador de solfa", que cremos ter sido um profissional, foi seguramente um português, pois deixou os textos castelhanos crivados de aportuguesamentos ou lusismos.

 

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