Panorama musical em Portugal até ao séc XX

             Séculos XV e XVI

 

   Coincidindo com os alvores do Renascimento, datam dos princípios do século XV as primeiras notícias da existência e prática de música polifónica, muito embora se possa admitir que essa prática viesse já do século XIII, como acontecia na vizinha Espanha.
   Grande protector das letras e das artes, o rei D. Duarte (1433 - 1438) que, além de notável escritor, foi homem de larguíssima erudição como indica o catálogo da sua biblioteca, uma das mais ricas de então, interessou-se em alto grau pela música e nomeou Afonso Vicente seu mestre de capela em 1437. Também se dedicou particularmente ao estudo da música, o príncipe D. Pedro que foi um dos homens mais viajados do seu tempo.
A música de estilo vocal acompanhado desenvolveu-se até ao fim do século XV e teve em Tristão da Silva mestre do rei D. Afonso V e autor da colecção Los amables de la musica, o seu melhor representante. A este período pertencem ainda os irmãos André e Garcia de Resende, Jorge de Montemor, Afonso da Palma, Damião de Góis e Gil Vicente, o genial fundador do teatro português. Em grande parte, todos estes compositores se distinguiram também no campo da literatura. No período vocal acompanhado, verificou-se o aparecimento de uma escola de órgão que, embora ainda hoje mal conhecida, se pressupõe importante, porque, anteriores ou contemporâneos de um Cabezon ou de um Frecobaldi, já alguns compositores portugueses, como António Carreira, Mateus de Fontes, Heliodoro de Paiva e Pedro de Araujo, haviam escrito admiráveis obras para aquele instrumento para o qual, só em Lisboa, se contavam treze escolas, nos meados do século XVI. Entre os muitos teóricos de valor que então apareceram, distinguiu-se o grande Vicente Lusitano, autor da Introdutione facilissima e novissima, di canto fermo, figurato, contraponto simplice, e in concerto com regole generali per fare fughe differenti sopra il canto frmo a 2, 3 e 4 voci, e compositoni, proportioni, generi diatónico, cromatico, enarmonico (1553), que defendeu brilhantemente as suas ideias sobre a antiga música grega numa célebre polémica com Nicola Vicentino. Ainda neste período a catedral de Évora tornou-se uma das principais escolas do estilo a cappella, que tanto na segunda metade do século XVI como ao longo de todo o século XVII, elevou a polifonia portuguesa a um dos lugares cimeiros da música europeia, com compositores como Manuel Mendes, Duarte Lobo, Manuel Cardoso, Filipe de Magalhães, Francisco Martins, Diogo Melgaz e João Lourenço Rebelo. O grande incremento que a arte musical obteve durante o século XVII deve-se essencialmente à protecção do duque de Bragança, D. Teodósio, e de seu filho, o rei D. João IV, compositor e teórico, que escreveu, entre outros livros, uma Defesa de la musica moderna (1659?). Segundo o catálogo, incompleto, a biblioteca musical de D. João IV, destruída pelo Terramoto de Lisboa, em 1755, foi uma das mais importantes da Europa não só quando a música Portuguesa como também estrangeira; possuía, por exemplo, o manuscrito original do Micrologus de Gui d’Arezzo e quase todas as obras e numerosos autógrafos de Palaestina, de Willaert, de Claudio Merulo, de Rolando di Lassus e de Monteverdi, entre outros.
   A par da magnífica produção dos polifonistas portugueses no campo da música religiosa, houve uma grande actividade dos madrigalistas, mais dedicados à composição de valencicos a cappella, como Francisco de Santiago, Filipe da Cruz e Marques Lesbio, os derradeiros representantes da polifonia profana de raiz renascentista. Dos organistas continuadores da escola do século XVI distinguiram-se, como teóricos, Manuel Rodrigues Coelho, autor do livro Flores de Música (1620), a primeira obra de música instrumental portuguesa que foi publicada, e Agostinho da Cruz, autor de Lira de Arco ou Arte de Tanger de violino na história da música.