Com
o século XVIII, mais precisamente depois de 1708, ano do casamento do rei D. João V com
a princesa Maria Ana da Áustria, começou na música Portuguesa o chamado «período
Italiano», baseado no sistema do baixo cifrado e caracterizado pelo predomínio da ópera
e das formas dramáticas profanas. A partir de 1717, foram estudar para Itália, como
pensionistas do rei, alguns músicos Portugueses. De entre eles distinguiam-se António de
Almeida, autor das operas La Pazienza di Socrate (1733), La Spinabla (1739)
e Il Trionfo dAmore, além de muitas obras religiosas e António Teixeira,
autor de numerosas músicas de Igreja, que foi o primeiro compositor dramático da língua
Portuguesa e um dos casos mais interessantes da história da música nacional, pois
escreveu música para sete óperas, com base nos materiais existentes na Biblioteca do
Palácio de Vila Viçosa; foram reconstituídas as partituras de Guerras de Alecrim e
Mangerona e de As Variedades de Proteu, ambas de 1737, pela qualidade música e
dramática que impõem António Teixeira como um dos principais compositores dramáticos
da primeira metade do século XVIII.
De Carlos Seixas (1704 - 1742), o maior organista e cravista deste
período, conhece-se hoje quase uma centena de tocatas ou sonatas para cravo e órgão, de
forma ditemática, recentemente publicadas na colecção «Portugaliae Musica». É
também autor de um delicioso concerto para cravo e orquestra de arcos, um dos mais
antigos do género, e de abundante música religiosa.
Entre os vários compositores e interpretes que D. João V chamou à
corte, está o Italiano Domenico Scarlatti que viveu em Lisboa de 1721 até 1729 e aqui
escreveu muitas das suas admiráveis sonatas em forma ditemática, para cravo, dedicadas,
na 1ª edição impressa, ao monarca Português.
Desde a chegada a Lisboa de um primeiro elenco de cantores Italianos, em
1732, até ao grande terramoto de 1755 que destruiu a recém-construida e fabulosa Ópera
do Tejo ou do Paço da Ribeira, representaram-se cerca de uma centena de óperas, grande
parte traduzidas e cantadas em Português, tendo chagado a funcionar , ao mesmo tempo,
cinco teatros de ópera, incluindo o do Bairro Alto com os seus bonecos de metro e meio,
onde mais tarde viria a estrear-se Luísa Rosa de Aguiar Todi uma das maiores cantora
lírica do seu tempo. Isto revela o interesse que a ópera, nova forma de espectáculo,
despertou.
Na segunda metade do século XVIII a música Portuguesa abrange
essencialmente os géneros religiosos e dramáticos, cultivado por dezenas de compositores
cuja produção, vastíssima, se encontra ainda por estudar, e dos quais avultam os nomes
de João Sousa Carvalho, de Marcos Portugal e de António Leal Moreira. Também
recentemente, descobriu-se na biblioteca do Palácio Ducal de Vila Viçosa a partitura de
uma admirável Paixão de João Pedro de Almeida Motta, compositor completamente
desconhecido mas que, pelo estilo de escrita e pela qualidade da música, se pode
considerar um dos melhores músicos Portugueses da segunda metade do século XVIII.
Dos discípulos de João de Sousa Carvalho, que exerceu uma notável
acção pedagógica no Seminário da Patriarcal de Lisboa, o mais brilhante foi o
pianista e compositor João Domingos Bontempo ( 1771 - 1842) que, depois de uma festejada
carreira de executante em Paris e Londres, veio fundar em Lisboa a primeira Academia
Filarmónica de Concertos, onde revelou ao público Português a música sinfónica e de
câmara de Haydn, Mozart, Cherubini, Boccherini e Bethoven. Em 1835, foi nomeado director
do Conservatório de Música, criado naquele ano. Nas obras produzidas contam-se
sinfonias, concertos, fantasias para piano e orquestra, sonatas para piano e violino,
música de câmara e religiosa e uma Missa de Requiem à memória de Camões, Op.
23; escreveu também um Método de piano, Op. 19, e tratados de harmonia, contraponto e
composição. Apesar da actividade que Domingos Bontempo e os seus sucessores
desenvolveram no Conservatório - Francisco Migone foi pianista e compositor de mérito,
Monteiro de Almeida, compositor e notável pedagogo musical - arte musical começou a
decair, devido principalmente ao mau gosto que se implementara no público amador de
ópera. Neste período, que abrange grosso modo a segunda metade do século XIX,
distinguiram-se Joaquim Casimiro Júnior (1808 - 1862), João Guilherme Daddi (1813 -
1887), Miguel Ângelo Pereira, Francisco de Freitas Gazul e Francisco de Sá Noronha,
todos compositores dramáticos com influência Italiana. A ela procuraram fugir, um pouco
mas tarde, e demandado o caminho do nacionalismo musical, Augusto Machado, com as óperas
Rosas de todo o ano. O espadachim do outeiro e Triste viuvinha, e Alfredo
Keil, com as óperas D. Branca, Irene e A Serrana (1899). |